Apesar de a pesca ainda ser vista por muitos como uma atividade de subsistência no Brasil, em países desenvolvidos como os Estados Unidos e Canadá, por exemplo, o reconhecimento da pesca como uma prática esportiva é massivo e movimenta bilhões de dólares. Nos últimos anos, porém, uma onda crescente de conscientização vem atingindo milhares de pessoas pelo Brasil. Tanto a administração pública como o setor privado perceberam que o turismo proporcionado pela pesca esportiva possui uma imensa relevância econômica.

É possível afirmar, no entanto, que a prática da pesca predatória com pescadores que desrespeitam inclusive os limites legais de abate ainda é frequente. Apesar de ainda existir um elevado número de pessoas com a mentalidade ultrapassada no que tange à pesca, a “sementinha” que o pescador esportivo Rubens de Almeida Prado ajudou a plantar na Década de 90 com o programa de TV “Pesca & Cia”, transmitido pelo SBT, foi aos poucos formando um verdadeiro “exército” consciente. 

O Dr. Thiago H. Fantini, presidente do Clube da Pesca.org, instituto que atua na promoção da pesca esportiva como turismo ecológico, afirma que atualmente a pesca como esporte é uma modalidade crescente no mundo e no Brasil, onde vem ganhando adeptos de forma acelerada.

Com a ajuda da tecnologia e a adesão massiva de usuários nas redes sociais, essa massa de pescadores esportistas, pessoas conscientes da limitação dos recursos naturais e da necessidade de preservação ambiental, passaram a possuir uma maior expressão. Um verdadeiro “poder de barganha” para com o nicho crescente do mercado econômico, que despertou a atenção também daqueles que fazem política.

Pegando como base o estado mais desenvolvido e populoso do país, o turismo de pesca movimenta grande parte da economia de muitas cidades paulistas, como, por exemplo, Ilha Solteira, Santa Fé do Sul, Sud Menucci, Neves Paulista e Nazaré Paulista. Essas cidades têm uma alta rotatividade de pescadores em busca do embaixador da Pesca Esportiva brasileira, o tucunaré. O que essa espécie proporciona às microeconomias regionais é incrível e surpreendente.

Em dados extraídos de estudos do SEBRAE-SP, o ramo teve uma explosão em 2013, movimentando cerca de 1 bilhão de reais naquele ano e tem crescido cerca de 30% nos últimos anos, conforme o levantamento do Sebrae denominado “Estudo de Ideias de negócios”. Em dez anos, quase dobrou o número de pessoas com o hábito de pescar no Brasil, passando de 4 para 7,8 milhões, segundo a consultoria Ipsos | Marplan (dados de 2020).

É possível imaginar o quanto esse mercado movimenta hoje, apesar dos pormenores da pandemia. Tal fato não só abriu os olhos da sociedade política dessas cidades, como possibilitou a conquista de legislações protetivas, com o intuito de não só fomentar o esporte como também salvar as respectivas economias, visto que muitas dessas cidades “dependentes” do turismo de pesca viram sua economia despencar à medida em que os peixes de seus reservatórios se esgotavam devido à pesca predatória. Bragança Paulista, por exemplo, que tinha uma procura fora do comum pela pesca esportiva do blackbass, viu a espécie desaparecer com os anos, por conta do abate desenfreado.

Nazaré Paulista e Paraibuna foram as pioneiras do Estado de São Paulo a aprovarem os projetos de lei municipais que proíbem a pesca predatória do tucunaré. Algumas cidades mineiras como Araguari e Tupaciguara seguiram a mesma linha.  Por sua vez, o Município de Piracaia, um dos últimos refúgios do blackbass do Estado de São Paulo, também conseguiu aprovar sua cota zero do bass americano.

O instituto Clube da Pesca.org também atua de forma consultiva no desenvolvimento de projetos lei de defeso dessas espécies esportivas, fazendo parcerias com o poder público e órgãos administrativos, com o intuito de explicar a necessidade de preservação com o fim de exploração turística ecológica e seus consequentes resultados, certamente positivos para toda a sociedade. O Dr. Thiago H. Fantini relata ainda que muitos municípios banhados por represas desconhecem o potencial turístico que a proteção legal de espécies como o tucunaré podem trazer para a região. “Geralmente existe uma certa insegurança, por parte dos políticos, de pautarem ou aprovarem projetos leis de proteção a algumas espécies de peixes. Talvez o medo de desagradar alguma classe antiga, ou até mesmo a falta de informação dos que acham que ao proteger o tucunaré, irão prejudicar o pescador profissional, acaba impedindo esse avanço importante”, afirma.

 O tucunaré não é considerado um “pescado comercial”, é um peixe que dificilmente é capturado com a utilização de redes devido a seus hábitos, sendo os impactos negativos da sua proteção praticamente inexistentes.

Considerar as espécies de tucunaré invasivas é um erro porque represa não é um ambiente natural. As represas formadas pelas usinas são verdadeiros marcos de “massacres ambientais”, onde ecossistemas inteiros são inundados pela necessidade humana de desenvolvimento, atrelada, é claro, a meios de produção energética. 

Esses ecossistemas sofrem transformações significativas, dentre elas a “aparição” dos ciclídeos, como tilápias e tucunarés. 

Segundo o presidente do Clube da Pesca.org, “ainda que em um ambiente totalmente artificial criado pelo homem, propício ao desenvolvimento e proliferação de novas espécies, como também a introdução artificial das mesmas, a exemplo da Corvina, não seria correto permitir o massacre de espécies esportivas sob o fundamento de que não são nativas daquele ecossistema. O próprio ecossistema formado pela represa não é nativo, seria um erro não tirar o máximo de proveito econômico de, visto que os esportes náuticos, dentre eles a pesca, fazem parte do dia a dia do brasileiro”.

Em um país com dimensões continentais como o Brasil, detentor do título de maior malha hidrográfica do mundo, a pesca como uma atividade de lazer, recreação e principalmente um esporte só tende a trazer frutos positivos com as leis protetivas das espécies esportivas.