Do céu ao inferno. Estádio Monumental de Núñez, 8 de maio de 2008. Bergessio, aproveitando o cruzamento de D’alessandro na primeira trave, antecipava Villagra, Loco Abreu, a vantagem outrora colossal do River Plate e corria para uma comemoração eufórica, raivosa, redentora, saborosa, um êxtase completo. O San Lorenzo de Almagro alcançava o virtualmente impossível e seguia adiante no mata-mata da Copa Libertadores. Enquanto isso, a maciça maioria milionária permanecia tão gélida quanto a fria noite de outono em Buenos Aires. Um silêncio ensurdecedor de quase 60 mil millonários, que expressava num grito sem voz a dor no peito rojo y blanco. O River sangrava. O River, mais uma vez, caía de joelhos em sua casa na Libertadores. Outra vez sofria contra um rival, como fora contra o arqui-inimigo Boca Juniors em 2000 e 2004. Já sem a geração dourada de suas canteras, de Saviola, Cavenaghi, Sorín e Aimar, sem os ídolos Crespo, Francescoli e Ortega. Era a última estaca, o golpe derradeiro.

Com 2 jogadores a menos, um San Lorenzo heroico eliminaria o River Plate em pleno Monumental. REUTERS/Marcos Brindicci (ARGENTINA)

O River não se levantaria mais dali. Seriam mais longos três anos de cada vez mais terror, medo e dificuldades, até que o pulsante coração millonário pararia de bater na, não menos fria tarde de 26 de junho de 2011, naquele mesmo Monumental de Núñez, quando o River, ao empatar em 1×1 com o pequenino Belgrano de Córdoba, era rebaixado pela primeira vez em sua história e começava o dia de seu juízo final com a revolta de sua torcida nos arredores do estádio. Era uma derrocada sem precedentes na história do River Plate, marcada por inúmeros erros de gestão e gerenciamento, que contrastavam com uma supremacia sem igual no século do Boca Juniors, maior rival da vida millonária que, claro, comemoraria como carnaval o perecer do grande rival, com inúmeros fantasmas com a letra B em suas arquibancadas.

Em 2011, o pior dia da vida do River Plate: um empate em 1×1 com o Belgrano de Córdoba selou a queda millonária a Primeira Nacional B, segunda divisão argentina.

Contudo, no meio da dor sem fim e de um coração que já não aguentava mais sangrar, o orgulho millonário empunharia, naquele mesmo Monumental, que àquela altura era nada além de destroços a seguinte frase: “Me verá voltar e te ajoelhará.” Mais do que uma jura, era uma promessa que o River morto, destruído, humilhado e derrubado fazia a seu grande algoz. A seus grandes algozes. O festejar ao sofrer millonário não sairia impune, seria devidamente cobrado com juros e correção monetária. O carrasco, o juiz, júri e executor da sentença era figura da casa, tinha nos olhos a sede de sangue e de vingança. Seu nome? Marcelo “el Muneco” Gallardo.

“Me verás volver y te arrodilarás”. A frase, mais do que uma jura do orgulho do River foi uma premonição. O millonário voltaria à vida e os rivais, um por um, se ajoelhariam

O RENASCIMENTO COM UM ÍDOLO

Antes de Gallardo e do terror para os rivais, porém, o River Plate passaria por uma grande reformulação, capitaneada por um ídolo. Ramón Angel Díaz, argentino, cria das categorias de base e artilheiro do clube como jogador, e multicampeão como treinador da equipe com idas e vindas entre 1995 e 2002 e 7 títulos, incluindo 5 campeonatos nacionais e a Libertadores da América em 1996, havia saído do clube mesmo querendo a permanência, por desavenças com a diretoria. 

Díaz, inclusive, era o treinador do San Lorenzo naquele 8 de maio de 2008, quando com 2 homens a menos e 0x2 contra o Ciclón arrancou nos dentes um empate e a classificação em um Monumental tão lotado quanto incrédulo – seria a última Libertadores do River antes do rebaixamento. O namoro com a volta dependia especificamente de superar os atritos com o presidente do clube, o também ídolo Daniel Passarella. Viria apenas após a queda. 

Com Díaz no comando, o River, de volta à elite, passou um ano de transição e algumas dificuldades antes de, no Clausura de 2014 (disputado no primeiro semestre do ano), quebrar um jejum de 10 anos sem vencer o Boca na Bombonera e ser campeão argentino outra vez – Ramón se isolava ali como treinador mais vezes campeão da história do River Plate (8) que, por sua vez, reafirmava a posição de “el Más Grande” campeão do país. O millonário havia voltado.

Em sua terceira passagem como técnico do clube, o ídolo Ramón Díaz fortaleceu o elenco que havia subido da segundona e se isolou como treinador com mais títulos na história do River até a chegada de Marcelo Gallardo

Mas aí houve um choque: Ramón Díaz, sentindo que não havia o que mais seu trabalho poderia entregar para o Millo, decidiu sair do clube e deixar o cargo de treinador. Para seu lugar, veio um antigo discípulo, também canterano e comandado do argentino no River multicampeão dos anos 1990: Marcelo Gallardo. Gallardo havia se aposentado como jogador pelo Nacional de Montevidéu em 2010 e por ali mesmo, no ano seguinte começara a carreira como treinador. 

GALLARDO: EL REY DE COPAS

Do inferno ao céu. Estádio Monumental de Núñez, 24 de novembro de 2014. Meros 15 segundos de semifinal e Enrique Osses apitava a marca da cal. Era tragédia em noite sulamericana outra vez, e outra vez contra o Boca. O roteiro, porém, nem o mais fervoroso millonário, nem o mais pessimista xeneize conseguiriam escrever. Barovero venceu Gigliotti com sua mão direita. Pisculichi não deu chances a Orión com sua perna esquerda. O River Plate voltaria, naquela noite, a uma final continental pela primeira vez desde 1996. As eliminações em profusão para os rivais eram história do passado. A diferença estava no banco. Havia um Muneco no comando.

Canterano, ídolo e campeão como jogador assim como Ramón Díaz, Marcelo Gallardo substituiu o antigo mentor para mudar o River Plate de patamar e construir uma dinastia sobre os grandes rivais

Com Gallardo, o River Plate se transformaria em um dos conjuntos mais temidos e competitivos do continente. Mais do que isso, um pesadelo para os rivais e uma máquina de colecionar copas. Depois de faturar a Copa Sulamericana em 2014, o River voltaria à Libertadores com dificuldades – num grupo relativamente tranquilo com Tigres UANL , San José de Oruro e Juan Aurich-PER, o millo passaria na bacia das almas, com a pior campanha entre os 16 classificados, o que significou enfrentar outra vez o Boca Juniors em um mata mata sulamericano – o Boca havia passado com, até então, a melhor campanha na história da fase de grupos com 6 vitórias em 6 jogos. Só que aí o River voltou a se impor: 1×0 na ida, com gol de Sánchez, e a volta sequer acabou; o uso de spray de pimenta pela torcida do Boca no túnel de vestiário do rival suspendeu a partida e rendeu a eliminação direta ao Boca. O River derrubaria também Cruzeiro, Guarani e Tigres UANL para voltar a ser campeão da Libertadores. Na Recopa do mesmo ano, que se classificara pelo título da sula de 2014, a vítima da vez seria o San Lorenzo: duplo 1×0 e El Muñeco chegava a seu terceiro troféu pelo clube. Mais do que voltado, o River agora era também carrasco. Imponente, desafiador, osso duro de doer, multicampeão.

De lá pra cá, foram mais 9 troféus de Gallardo, todos em torneios de Copa e mata-mata, que consagrou o técnico como o mais vitorioso da história do River Plate e com enorme margem para o segundo – o próprio mentor e antecessor, Ramón Díaz. O mais emblemático deles, sem dúvidas, na Copa Libertadores de 2018 quando, na fase eliminatória, El Muñeco despachou os rivais Racing nas oitavas, Independiente nas quartas, e outra vez contra o Boca Juniors, na final, foi campeão diante dos olhos do mundo inteiro na decisão disputada na Espanha. No total, foram 8 disputas diretas em mata-mata contra seus rivais e 8 classificações/títulos. Um domínio sem qualquer precedentes.

Com Gallardo, a única Libertadores em que o River Plate não esteve ao menos na semifinal foi a de 2016. Foram 2 títulos, um vice e outras duas semifinais em seis temporadas.

E o Boca, que tanto fizera o millo sofrer, virou o grande palco para o sucesso de Gallardo: as perdas de título na Libertadores e na Supercopa da Argentina somaram-se às eliminações nas oitavas de 2015 e nas semis de 2014 (sula) e 2019 (Libertadores). Um autêntico pesadelo Xeneize, que viu o grande algoz cumprir a promessa que fizera no leito de morte.

Nesta quinta-feira, o River e Gallardo vão atrás de mais um troféu: a Supercopa Argentina de 2020, mais uma vez diante de um rival: o Racing de Avellaneda. Se a história e o retrospecto ensinam alguma coisa, é que não se pode duvidar do poderio millonário. Rey de Copas y de rivales.

Regente da orquestra, Gallardo deu de ombros para o assédio europeu para negociar a renovação com o River e vai atrás do quarto título contra um rival direto nesta quinta feira

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