Em 22 de junho de 2011, a noite seria mágica para santistas espalhados pelo mundo. Terminaria, o mundo testemunhou, no tapa de perna direita de Neymar, milimetricamente pensado entre o uruguaio Sosa e a trave direita do gol do portão principal do Pacaembu. No, não menos preciso corte e finalização – essa de esquerda – de Danilo, gol tão próximo ao poste direito do goleiro do Peñarol quanto o de Neymar. Nem o susto de Martinuccio – com colaboração fundamental de Durval, é verdade – seria páreo para a coroação alvinegra num Pacaembu abarrotado e trajado de branco. Mas para os torcedores, como Iggor, as memórias vão além dos gols ou do capitão Edu Dracena erguendo o troféu:

“A melhor lembrança [do Santos em Libertadores] é a final de 2011. Impressionante a atmosfera, muita gente diz que o “Santos não tem torcida”, mas eu tenho uma história ótima daquele dia: Eram 20h e minha avó foi buscar minha mãe no trabalho. Ela trabalhava na Angélica. Eu fui junto, e por onde eu passava eu via gente com a camisa do Santos, surreal. Quando o Neymar fez o gol eu desabei de chorar.”

Iggor Flaviano, de 20 anos, afirma que sua paixão pelo clube é herança direta de seu avô, fanático pelo clube, tal qual Aline Santos, outra torcedora que tem na família a fonte do amor pela equipe – no caso dela o pai, fanático, forneceu não só a primeira camisa como também a inspiração para torcer pelo clube via rádio, no difícil ano de 2008, quando o Santos escapou da degola no brasileirão por um mísero ponto. Neste sentido, a turbulenta temporada de 2020 do peixe talvez não seja tão estranha para a dupla. Aline classifica até como “surpreendente” a campanha na Libertadores, destacando o espírito do clube na competição, além da força de vontade do elenco e do peso da camisa, em um ano “péssimo”, onde “tinha tudo pra ser eliminado em todas as competições.” Iggor, por sua vez, acredita mais na qualidade técnica e na força individual de peças do elenco, embora não acreditasse em títulos no ano pelos fatores ‘treinador’ e ‘elenco’.

“O Santos teve um ano péssimo e tinha tudo pra ser eliminado em todas as competições, e foi, só restou a Libertadores, mas o espírito do Santos na Libertadores é diferente, foi além da técnica, da tática, foi com o peso da camisa e com a força de vontade do elenco, contrariou todas as expectativas”

Em relação às superstições, a dupla difere: Iggor tem ritual meticuloso, que envolve camisa do clube, um calção do Cruzeiro e até mesmo cueca específica, e aproveita os dias que antecedem grandes jogos reassistindo a partidas do Santos contra o rival da vez: “Por exemplo, nas quartas eu assisti Santos 3×1 Grêmio (2010), Santos 4×2 Grêmio (2012) e o último jogo, Santos 2×1 Grêmio (2020)” diz o torcedor, que também enfatiza: nada de cor verde. Já Aline é menos precisa e busca apenas rezar antes do jogo, algo que relaciona mais ao nervosismo de pré jogo associado à fé que carrega.

Contudo, se diferem nos ritos pré jogo, os torcedores convergem opiniões no que tange às forças e também as preocupações dentro do campo para a final de amanhã. Marinho é, junto de Soteldo, a grande esperança de gols, enquanto que o coletivo palmeirense comandado por Abel Ferreira representa a maior preocupação vinda do rival. O camisa 11 santista, aliás, foi citado por ambos caso fosse possível escolher o autor do ‘gol do título’, ainda que Aline também busque na memória o lesionado Carlos Sanchez, outro líder técnico da equipe que esteve de fora do mata-mata desta Libertadores. Já num exercício de imaginação para reforçar o Santos que vai ao Maracanã neste sábado, Neymar acabaria sendo a unanimidade, pela idolatria recente e pelo poderio técnico. Aline cita também Pelé, bicampeão da América pelo Peixe, e Léo, finalista em 2003 e campeão em 2011, enquanto que Iggor opta por Rafael Cabral e Danilo, peças importantes no tri e que, segundo ele, proviriam fortalecimento em setores que não sente tanta confiança do time. Mas e Pelé? Iggor responde: “Gente, qualquer um escolheria Pelé, Pepe e Neymar eu imagino. Preferi ser um pouco menos no mundo da Lua.”

Mundo da lua à parte, é a hora em que tanto Iggor e Aline quanto milhões de santistas vão ter de contrastar – e lidar – com o sonho acordado que não permite dormir. Que mistura nervosismo, medo e também esperança, desejo. A América está a 90 minutos e um clássico de distância e, sem dúvidas, jamais soou tão longe das mãos alvinegras. O frio na espinha, as borboletas no estômago, os choques nas pernas são partes de uma tarefa tortuosa chamada torcer. São exatamente momentos como estes que fazem todo o resto ter tanto sentido. É dia de final da Libertadores da América. Pelo Tetra na Vila.

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