We Race As One, mas não tanto assim. Que a Fórmula 1, em busca de cada vez mais cifras procura centros emergentes na economia mundial para sediar corridas nos últimos tempos não é novidade – exemplos como os de Azerbaijão, Rússia, Singapura, Abu Dhabi, Coréia do Sul ou Vietña, para ficarmos apenas no período dos últimos 12 anos. Nem a qualidade e tradicionalismo de circuitos clássicos da categoria parece ser mais garantia de negócio fechado, como nas ameaças constantes às permanências de Silverstone, Monte Carlo ou Monza, ou as que não resistiram no certame como Nürburgring, Hockenheim e Interlagos.

Esperava-se, porém, com a adição de campanhas públicas de equidade social, inéditas na categoria e impulsionadas por pressão e luta direta do multi campeão Lewis Hamilton, ao menos uma sede menor de dinheiro de FIA e Liberty no que tange a escolha de centros, senão tradicionais ou com atrativos esportivos nas pistas,com pelo menos cenários que corroborassem o que a campanha We Race As One sugere discutir nos âmbitos político e social. Não é o caso.

Jeddah sediará mais uma corrida noturna no calendário da F1, a partir de 2021 (foto: esaithy)

Primeiro, um projeto muito mal explicado e com enorme inconsistência sustentável e ecológica em Deodoro, no Rio de Janeiro, teve não só o aval como o apoio direto e mesmo a pressão por sua confirmação, por parte da Liberty. Agora, nesta semana, a confirmação do GP da Arábia Saudita em Jeddah cai como mais um fator claro e manifesto da ordem das coisas na cabeça do corpo diretivo da categoria. A Arábia Saudita, custa nada lembrar, registra crimes em profusão contra os Direitos Humanos e contra minorias sociais, na revogação de direitos básicos à mulheres e pessoas LGBTQI+, além de perseguições por parte do líder Mohammad bin Salman à opositores de seu governo – o país, por exemplo, teve rejeitado no último dia 14 de outubro o pedido por um lugar no Conselho de Direitos Humanos da ONU, enquanto China, Rússia e Cuba tiveram seus ingressos admitidos.

Ao confirmar seu GP saudita, a Fórmula 1 passa por cima da crise humanitária no país, bem como os grupos sociais afetados por esta. Passa por cima de lutas intermináveis por direitos básicos e ratifica que, antes de sua própria campanha, o dinheiro vem em primeiro lugar – a companhia estatal de petróleo do país, Aramco, virou patrocinadora master do campeonato já neste 2020. Desenha com todas as letras que a campanha social, quando muito, se resume a um marketing que surfa na luta de sua principal estrela no grid, ainda que para este, tal luta representa um assunto de primeira importância pessoal. Sinaliza a todas as fãs da categoria e trabalhadoras, sobretudo as sauditas, que sua presença no certame é nada mais que descartável, pela cifra certa. E, por fim, sinaliza que automobilismo por si só, em sua cabeça, precede o entorno, ainda que no entorno estejam milhões de fãs preocupados com todo uma vida pra viver além da F1.

Convenhamos, todavia, já era de se esperar. Afinal, para quem já passou por cima do Apartheid, de crises de segurança com a segurança dos próprios pilotos em diversas oportunidades em risco ou a Primavera Árabe, e continua passando em outros espaços no calendário atual como os de China, Estados Unidos e Rússia tampouco se preocuparia com o que acontece na Árabia Saudita. Como dizem os ricos homens brancos, normalmente donos irrestritos do espetáculo: o show tem que continuar!

Em 1985, F1 deu de ombros ao Apartheid e Nigel Mansell venceu corrida controversa – pra dizer o mínimo – em Kyalami (foto: Sutton Images/ESPN)

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