16 de junho de 1999, noite à dentro e lá foi Zapata para a marca da cal. Marcos no gol, milhões de olhos para aquelas traves e uma aura que pauta a vida palestrina nas grandes decisões. O colombiano escolheu o lado direito do goleiro brasileiro que, por sua vez, pulou para a esquerda. O salto, corpo suspenso indo de encontro ao solo com o olhar fixo, compenetrado, atento, sem desviar da bola, a escoltando caminho afora até a placa de publicidade. Logo depois, claro, a explosão, a festa. Havia sido assim nas quartas de final, contra o arquirrival Corinthians. Seria outras cinco vezes nos dois anos seguintes pela Libertadores. Palmeiras e as decisões por pênaltis são velhos conhecidos, mas isso não torna a disputa menos tensa, menos dramática. Muito pelo contrário, de acordo com Gabriel Alves:


“Pênaltis e Palmeiras costumam sempre ter histórias dramáticas, ainda bem que em um sentido positivo. Minha superstição aumenta umas 5x mais. Eu não olho de forma alguma os batedores do Palmeiras, todas as vezes em que olhei, os cobradores erraram, seja dentro dos 90 minutos ou nas decisões mesmo. Só olho os pênaltis dos adversários pra secar muito e torcer pro nosso goleiro fazer o milagre.”

O torcedor, de 24 anos, se acostumou cedo aos apertos no coração que o clube causa, afinal, vem de família inteira Corinthiana – segundo Gabriel, aliás, justamente num Derby vencido pelo Palmeiras que o interesse pela equipe surgiu. Bárbara Cavalcante vai ainda além: para ela a simpatia, que nasceu assistindo jogos junto de sua avó, santista de coração, tomou forma de vez na queda do clube para a série B em 2002. Ela é devota das superstições e apela para os mínimos detalhes: “tento usar a mesma camisa, fazer as mesmas coisas que deram certo, assistir no mesmo lado do sofá, e não levantar de jeito nenhum.” No que tange às disputas de pênaltis, o nervosismo é ainda maior:

“A cada disputa de pênalti, eu sinto que vou morrendo aos poucos. eu fico exatamente nervosa, ajoelho, rezo, faço promessas… da última vez deu super certo. mas os jogadores poderiam poupar tamanho sofrimento pro torcedor.”

Gabriel, por sua vez, mantém seu “controle do destino” do palestra atrelado às camisas do clube que possui:

“Gosto de usar a mesma camisa da última vitória. Um bom exemplo é nessa edição da Libertadores e clássicos desse ano, estava usando sempre a camisa branca de 2018, e o time estava sempre indo bem. No jogo de volta, ela estava lavando e resolvi usar outra. Deu todo aquele sofrimento.”

A dupla é bastante homogênea no que tange as esperanças para a final deste sábado: a base e as referências do elenco. Bárbara confia a Gabriel Menino um possível gol do título, e cita o paraguaio Gustavo Gómez e o goleiro Weverton, líderes do sistema defensivo palestrino, como principais pilares. Gabriel corrobora a visão, citando que “ você vê um Gabriel menino em campo jogando e não imagina que é o primeiro ano dele como profissional.”, além de lembrar o camisa 10 e centroavante da equipe, Luiz Adriano, por ser “muito inteligente, dentro e fora da área”. As preocupações giram em torno da verticalidade santista, que costuma castigar adversários que erram no primeiro terço do campo, e nos nomes de Yefferson Soteldo e Marinho, dois dos principais destaques do peixe na temporada.  Já os craques alviverdes do passado que a dupla usaria para reforçar a equipe de Abel Ferreira remontam todos ao passado recente do clube, e à época daquele 16 de junho do Palestra Itália: Gabriel cita Alex, Edmundo e Arce – o primeiro e o último presentes naquela conquista sobre o Deportivo Cali – enquanto Bárbara lembra do grande ídolo, Marcos, e dos nomes de Alex, Evair e Paulo Nunes. Nomes de uma glória marcada eternamente no coração do clube e de sua torcida.

Racionalidade não parece ser a melhor maneira para definir o que é o Palmeiras e a Libertadores da América. Um clube guiado muito mais pela técnica, pela vontade e pelo coração, e que não teria melhor maneira de autodefinir a relação como sua “obsessão”. Que não se explica com palavras, que não se entende com a lógica, que apenas se vive, no limite do que o coração aguenta ou entende por emoção. Amanhã, serão os 90 minutos finais de uma obsessão que, desde aquela noite em junho de 1999 jamais esteve tão perto. E que o Palmeiras verá todo o mundo desmoronar antes de seu coração parar de bater no intuito de conquistá-la, custe o que custar. É dia de final da Copa Libertadores. Pela obsessão verde.

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