A+ R A-

Política e Esporte caminham juntos? Sim

     Alguns amigos me questionaram sobre um artigo escrito por um apresentador de TV a uma revista. Querem saber minha opinião

     Assim como ele, o direito democrático nos da o direito de dizer o que desejarmos, se é correto ou não cabe a história julgar e o tempo é o senhor da razão, certo?

     Mas ao nos tornarmos figuras públicas, formadores de opinião e me coloco neste bolo, pois além disto, tenho orgulho de ser professor, temos que ter cuidado.

     Política e esporte sempre caminharam juntos e vamos tomar cuidado para não misturar com politicagem, que é o que Eurico Miranda, Mustafá Contursi, Dualibi, Ricardo Teixeira, Blatter, Platini, Chedid, entre outros realizam ou realizaram.

     O esporte sempre foi uma ferramenta de fomentação política sim, de transformação e em alguns casos de conquistas fundamentais e de alicerce para algumas lutas. É bem verdade também de que o esporte foi usado para ludibriar e manipular politicamente as pessoas, mas tudo no planeta não foi sempre utilizado para os dois lados?

     Ou irão me dizer, que a TV e a música, veículos de entretenimento nunca foram utilizados de forma correta ou para depreciação?

     Se começarmos a mencionar no período helenístico (de 323 a.C. a 146 a.C.) o esporte era utilizado como preparação militar e também para estabelecer relacionamento de paz entre cidades e estados e assim nasceram os jogos olímpicos que deram sentido ao período helenístico selando a paz entre cidades Gregas para sua realização.

     Já nos jogos olímpicos da era moderna, Hitler utilizou dos jogos para demonstrar a força de sua nação e seus ideias, realizando uma das melhores olimpíadas da história, os jogos de 1936. Onde também ocorreu um fato que marcou o mundo esportivo e político como referência contra o racismo, a conquista do ouro de Jesse Owens (EUA).

Jesse Owens 1936 ESPORTESNET 001

     Na Guerra Fria a corrida para mostrar poder e força alcançou o esporte, espionagem de treinamentos, planos e até boicotes na Olimpíadas de Moscou e Los Angeles, isso fortaleceu o esporte em países como Rússia e Cuba. O esporte era usado como instrumento ideológico e propaganda, cada vitória era para fortalecer a política e soberania de cada regime.

     Não muito tempo atrás (1995) Nelson Mandela usou o esporte para unir negros e brancos, o preconceito entre as raças era muito grande no país e o medo de uma guerra racial era constante. Ele viu no Rugby uma saída para unir os povos.

     O campeonato mundial de Rugby foi disputado na África do Sul e com um jogador negro em um time formado só por brancos passou a atrair e unir as raças, principalmente depois do grande feito: foram campeões mundiais em cima da Nova Zelândia (a grande favorita). O filme “Invictus” (2009) mostra como Nelson Mandela uniu as raças através do Rugby, vale a pena assistir se você ainda não viu.

     Em 1968, o esporte foi utilizado para ser uma ferramenta gloriosa na luta contra o racismo, onde o movimento "Panteras Negras" apareceu ao mundo nos jogos do México.

     A luta dos negros americanos contra o racismo atingia novos patamares quando chegaram os Jogos Olímpicos do México, em 1968. Os atletas negros consideraram a possibilidade de simplesmente boicotá-los. Não chegaram a tanto. Mas criaram uma associação que deixava clara sua insatisfação com as coisas como eram, a OPHR, as iniciais em inglês de Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos.

     No segundo dia da competição, foram disputados os 200 metros livres, uma das provas mais nobres do atletismo. O resultado não surpreendeu: dois americanos negros no pódio, e entre eles, em segundo lugar, um australiano.

Panteras Negras Mexico 1968 ESPORTESNET 001

     O que chocou foi a atitude deles quando tocou o hino americano. Tommie Smith, medalha de ouro, e John Carlos, de bronze, baixaram ligeiramente a cabeça e ergueram desafiadoramente um braço com luva preta, na saudação consagrada pelos Panteras Negras, um grupo que fez história no combate à discriminação nos Estados Unidos.

     O corredor australiano, Peter Norman, deixou claro seu apoio aos rivais. Recebeu a prata com um distintivo do OPHR na camiseta. Antes, Norman tivera já uma participação relevante no bastidor do protesto mudo: Carlos esquecera o par de luvas que colocaria caso subisse ao pódio. Norman, ao saber disso, sugeriu que cada um dos americanos usasse uma luva.

     A imagem dos três no pódio é uma das cenas mais extraordinárias de todas as Olimpíadas disputadas na era moderna, e com o tempo se transformaria num símbolo resistente, poderoso, tocante do movimento de afirmação dos negros americanos.

     Na partida entre Irã e Estados Unidos na Copa do Mundo de 1998 foi muito aquecida devido aos problemas entre os governos dos países fora das quatro linhas. No entanto, para evitar qualquer briga ou guerra, as duas seleções se posicionaram junto antes do jogo para uma foto simbolizando a paz.

     No Brasil vamos lembrar da Democracia Corinthiana, um dos maiores movimentos políticos realizado por atletas no país. Em 1982 o Corinthians mostrou, em plena ditadura militar, que liberdade e democracia eram valores possíveis.

Democracia Corinthiana ESPORTESNET 001

 

     Era encabeçada nos gramados por jogadores como Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zé Maria, Biro-Biro, Zenon e no cenário da mídia nacional por pessoas públicas como Rita Lee, Juca Kfouri, Boni - “recrutados” pelos esforços do famoso publicitário Washington Olivetto.

     Agora na Coréia do Sul, onde as duas Coreias, que há mais de 50 anos estão em conflito, disputaram o hockey no gelo unificadas, com atletas das duas nações, algo sem precedentes e que só poderia ocorrer no esporte.

     Na Espanha, o Barcelona é o símbolo da luta da Catalunha e é a forma como o povo encontrou para manter viva sua cultura e tradição mesmo em meio a dominação espanhola.

     Voltando ao Brasil, a colônia italiana para resistir as perseguições e acusações durante a segunda guerra mundial se fortalecia e difundia sua cultura amparados em clubes como o Palmeiras e o Cruzeiro (na época ambos denominados Palestra Itália).

     Acho que podemos perceber que o esporte sempre esteve caminhando ao lado da política, em muitos momentos de forma negativa mas em muitos outros sendo a arma de um povo ou um país para lutar por seus anseios e ideias. O esporte é lindo, é luta, é força, é união e sempre será nosso combustível, mesmo não sendo tão essencial quanto o alimento...o esporte sempre ajudou e muito minha formação política, minha visão do que é democracia, luta por direitos, combater o racismo e também a ver o quão podre é a corrupção entranhada em nossa sociedade e onde o esporte se torna o reflexo também da parte ruim de nossa nação. Me perdoem a incoerência na ordem cronológica dos fatos, fui puxando e revendo a memória e a licença poética foi me tomando de forma e me permitir uma certa desorganização.

 

Fernando Alves Firmino - Especial para o ESPORTESNET

 

No Tatico Fernando Alves Firmino ESPORTESNET 2015