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Os méritos e falhas da Conmebol na 'nova' Libertadores

    Nesta terça-feira (27), apósreunião do seu Comitê Executivo em Assunção (Paraguai)a Conmebol anunciou o novo formato da Copa Libertadores da América. Além do aumento no número de clubes (de 38 para 42 participantes) e da "migração" de 10 clubes eliminados na fase de grupos para a Copa Sul-Americana do mesmo ano,  a competição passará a ser disputada de fevereiro à novembro, em 42 semanas. Outra grande alteração no regulamentoserá a final em jogo único, realizada em campo neutro, como acontece na UEFA Champions League. O novo regulamento será aplicado a partir de 2017. 

 

     - Depois de uma análise criteriosa das necessidades e características próprias do futebol sul-americano, decidimos adotar o calendário anual para a Libertadores. Por muito tempo os clubes tiveram que escolher entre o campeonato local e os torneios continentais, e isso afeta a qualidade de ambas as competições. Essa mudança nos permitirá melhorar o desempenho esportivo nos torneios nacionais, proteger os jogadores e, além disso, potencializar a qualidade de jogo das copas continentais – disse.

 

     'Una de cal y otra de arena'

 

     Para o publicitário e blogueiro do Boca Juniors no ESPN FC, Flaco Amarelo, os clubes do continente ganham com as mudanças. Entretanto, Flaco faz uma ressalva.

 

     - Como se diz na Argentina, a Conmebol sempre manda 'una de cal y otra de arena'. Deixar a competição anual e não semestral é uma melhoria. Ajudará no calendário e planejamento dos clubes, sem contar que, com os eliminados indo pra Sudamericana (Sul-Americana), deixará a 2ª competição do continente mais atrativa. Apesar disso, acredito que seria bom o calendário na América do Sul se ajustar ao europeu. A Argentina fez isso este ano, tornando seu ano temporada 2016/2017. Isso evitará perder jogadores no meio do campeonato (tanto para seleções quanto para mercado de transferências). Em vez de uma Libertadores de fevereiro à novembro, seria de agosto à maio – opina. 

 

     Apesar dos elogios, Flaco Amarelo criticou a entidade pela final em jogo único. Para ele o perfil dos torcedores que acompanharão a decisão não ajudará o espetáculo.

 

     - A questão da final única é uma dos maiores erros que possam ter. Além dos problemas financeiros e de logística (América do Sul não é como a Europa nestes termos), teremos possivelmente estádios vazios em finais. E mesmo que num futuro estejam cheios, será uma festa basicamente para turistas e barras e organizadas bancadas por cartolas. Quem sofrerá com isso é o torcedor "comum", que é a maioria.

 

     Embalagem bonita para um modelo retrógado

 

     Apesar da justificativa de Alejandro Domínguez, mandatário da entidade que comanda o futebol na América do Sul, que ressaltou o ganho técnico da Copa Libertadores a partir do ano que vem, há alguns anos se discute a capacidade financeira da Copa Libertadores. Não foram poucasas vezes que clubes do Brasil se posicionaram contra as baixas premiações oferecidas na competição continental, como fez o Corinthians e o São Paulo em dezembro de 2015. 

 

     O professor de jornalismo e marketing esportivo da Mackenzie e da Belas Artes, Anderson Gurgel, vê como benéficas as mudanças que serão aplicadas na Copa Libertadores. Para Gurgel as mudanças 'se inspiram no que tem de excelência e referência de negócios de gestão de eventos de futebol no mundo, que é o modelo da Liga dos Campeões'.

 

     - Ao alinhar o modelo brasileiro com o modelo europeu, gera uma série de possibilidades. Inclusive, gera a oportunidade da final ser um evento mais espetacular, e não só uma final de Libertadores em dois jogos. (...) Passa a ser um grande evento até com vocação para megaevento numa cidade e numa arena sensacional e não naquela arena de um time que não tem um grande estádio e que tem que se acomodar naquele modelo como já aconteceu em edições anteriores. Por exemplo, no caso do Brasil, vamos imaginar que numa final se escolha uma dessas arenas espetaculares, feitas para a Copa do Mundo. Você pode com isso atrelar uma série de modelos de negócio que vai misturando o modelo da Champions até com uma 'pegada' de grandes eventos como SuperBowl. Você pode atrelar isso a pacotes turístos, a shows, a uma cidade com vocação turística que possa explorar isso de uma maneira incrível como outras já fizeram (...). A princípio o campeonato mais longo vai gerar mais partidas, mais interesse de público, mais vendas de ingressos, mais exposição de patrocinadores, então gera negócios. Afinal, em estádio único, cria-se um valor diferenciado justamente por ser um único jogo tanto em termos de valor de ingresso, quanto em termos de mídia (...) - disse. 

 

     Apesar de exaltar a mudança na visão de negócio em torno da Copa Libertadores, o professor relembra problemas que envolvem a gestão do futebol sul-americano. Gurgel cita os recentes escândalos que envolverem dirigentes ligados a Conmebol. 

 

     - O problema, que a gente não pode deixar de ignorar neste processo, é o contexto. Estamos falando de Conmebol, estamos falando de um modelo de gestão do futebol latino-americano extremamente retrogrado, atrelado a políticos envolvidos em 'n' escândalos e isso não foi totalmente resolvido. Ainda que a gente tenha vivido esse ciclo de escândalos da FIFA, que teve várias mudança, a CBF, por exemplo, não teve mudanças significativas. Então, estamos falando de se inspirar numa embalagem muito bonita para campeonatos e para um modelo de futebol sul-americano que continua o mesmo (...). Temos também isso surgindo não de um ambiente renovado, com uma série de boas práticas de gestão. Mas surgindo como uma imitação de um modelo interessante, que é o modelo europeu, mas pela mesma máquina que continua mandando no futebol brasileiro como já vem mandando nas últimas décadas - comentou. 

 

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Por Pedro Cavalcanti - Especial para o ESPORTESNET